Desta já te safaste…

Quem participa regularmente em provas de ultras distâncias, será sempre na minha opinião, alguém que tem uma força de vontade, capacidade de sofrimento e resiliência acima do considerado “normal”. Apesar destas qualidades, a maior parte das vezes, serem positivas no desenvolvimento pessoal, muitas vezes se conjuntas com cansaço físico, muitas horas sem dormir, e alguma teimosia, podem reunir um cocktail perfeito para as coisas correrem menos bem.

Congratulo o meu amigo Paulo Martins por se ter safado desta, uma desidratação forte e feia que lhe valeu 10 dias no hospital, no seguimento da sua participação no Ultra Trail Mont Blanc. Dentro do menos bom as coisas acabaram por correr bem, mas podia não ter sido assim. Espero que recupere totalmente depressa para podermos fazer mais uns treinos pela Arrábida.

PM

Quem corre em montanha, seja ela qual for, mais alta ou mais baixa, menos perigosa ou mais perigosa, com mais assistência ou menos assistência, terá de ter ser sempre uma grande dose de auto critica e de auto avaliação, e perceber quando se deve parar por estar a colocar outras coisas mais valiosas em risco como a nossa saúde ou mesmo a nossa vida. Não há corrida que valha isso.

E já agora nunca esquecer que não somos imortais, como em tempos escrevi aqui.

Continuação de bons treinos e de boas provas!!!

Em contagem decrescente

Faltam 8 dias para a partida de mais uma grande aventura, o Ultra Trail Cotê d’Azur Mercantour. Serão cerca de 146 Km com partida em Nice e chegada a Saint Martin-Vésubie, cruzando os Alpes Marítimos pelo Parque Nacional Mercantour num total de 10000 metros de desnível positivo.

É a primeira vez que vou tentar fazer uma prova com tantos quilómetros, o máximo que fiz de uma vez foram 115, mas penso que com alguma sorte e discernimento irei chegar ao fim. Sorte no que diz respeito a lesões, (para não acontecerem azares como no Andorra Ultra Trail), e discernimento no que diz respeito à gestão do esforço e da corrida, os primeiros 40 km tenderão a ser muito rápidos e se o esforço não for bem gerido pode vir a revelar-se fatal na segunda metade da prova que é demolidora.

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O treino possível foi feito, a prova está preparada e planeada, falta fazer malas e juntar-me aos restantes 531 atletas que vão fazer igualmente este Ultra Trail.

Para quem gosta de preparar antecipadamente as provas ou é simplesmente curioso acerca destes detalhes, deixo aqui o link para o roadbook desta prova. Ficou disponível 40 dias antes da partida e vale a pena uma leitura para perceber o nível de organização. Cliquem aqui para baixar o roadbook. No final virei aqui dizer se tudo correspondeu às expectativas.

Até lá vou ganhando inspiração e motivação extra com as façanhas dos amigos pelas provas do Ultra Trail Mont Blanc. Muitos amigos já terminaram os 119 km do TDS e outros continuam em prova, a equipa do Diogo continua a percorrer os 300 Km do PTL, outros já percorrem os 53Km do OCC e amanhã começam os 101 Km do CCC e os 168 Km da prova rainha UTMB, todas com muitos amigos também presentes.

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E hoje também é dia de apoiar o Nélson Évora na final do triplo salto do Campeonato do Mundo de Atletismo. Desejamos que traga de lá uma medalha!!!

Continuação de bons treinos e de boas provas!!!

Inveja da boa

Começou a festa.

Melhor, começaram as festas!

Esta semana e as seguintes, concentram um sem número de provas de Ultra Trail tão famosas e interessantes, que se todas elas fossem transmitidas na televisão seria uma espécie de Campeonato do Mundo de Futebol, com provas todos os dias e a todas as horas.

UTMBO interessante aqui, é que há tantos amigos a participar nestas provas que o esforço necessário para as acompanhar e para saber novidades das mesmas é quase mínimo, tal a velocidade da informação que circula pelos mais diferentes meios virtuais.

Ora isto acaba por causar alguma inveja, inveja da boa entenda-se, tal o número de fotos de paisagens e trilhos espectaculares, em lugares remotos, em lugares famosos, com estrelas das corridas…

GRP

É amigos na PT281+, é amigos no Grand Raid des Pyrénées, é amigos já em Chamonix para o Ultra Trail Mont Blanc que começa no final da semana, é amigos a caminho do Tor de Geans, é amigos um pouco por todo o mundo…

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Bem vistas as coisas também eu estou em contagem decrescente para o Ultra Trail Cotê d’Azur Mercantour, em quinze dias lá estarei na partida para o empeno e será a minha altura de causar inveja da boa a alguém.

Continuação de bons treinos e de boas provas!!!

Então e a festa pá?

Tenho assistido com alguma curiosidade a diversas discussões, sobretudo nas redes sociais, sobre os resultados dos atletas mais lentos nas provas a que se propõem realizar, sobretudo nas provas de maiores distâncias como as maratonas de estrada ou nas distâncias Ultra nas provas de trilhos e montanha.

Excursionistas, caminheiros, Zé dos Pincéis ou outros epítetos igualmente simpáticos, de tudo serve para ironizar um pouco com a prestação mais lenta de alguns atletas. E se pensam que esta questão é exclusiva cá dos Tugas estão muito enganados, na nossa vizinha Espanha também há quem “implique” (e bastante) com estes atletas, aludindo até ao facto de que o que dá interesse à competição, (na opinião dessas pessoas), é uma prova renhida e uma chegada com pouca diferença de tempo, se possível ao sprint, isto referindo-se a provas de Ultra Trail imagine-se.

Há assim um conjunto de pessoas, uns meros especuladores, outros meros espectadores, que opinam e gozam, na minha opinião, sobre o melhor ou pior desempenho de outras pessoas, muitas vezes sem nunca se terem atrevido a colocar no papel dessas mesmas pessoas.

Há aqueles que dizem que maratonistas são aqueles que correm os 42Km da maratona abaixo das 3 horas, há outros que por correrem uma prova de 80 ou 100 Km 30 minutos mais rápido que outros, já não consideram estes mais lentos ultramaratonistas. Enfim, há uma panóplia de “gozações” por aí, que efectivamente só servirão ao ego do “gozador”, já que aos verdadeiros “atletas” penso que isso passará verdadeiramente ao lado.

Estas pessoas deviam centrar os seus esforços, não a gozar com os atletas mais lentos mas antes a tentar mudar as organizações das provas já que são estas que decidem o tempo limite para terminar as mesmas.

É usual o tempo limite para terminar uma maratona de estrada ser 6 horas, assim como muitos ultra-trails poderão ir até às 48 ou mais horas, dependendo da distância e do maior ou menor desnível da prova.

Como trabalho com números, resolvi perder cinco minutos do meu tempo para fazer uma análise rápida e grosseira do que poderia mudar nas provas, se as organizações mudassem as regras de acordo com as pretensões destes pseudo opinantes das corridas.

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Comecemos então pela Maratona de Londres 2015, uma das grandes maratonas de nível mundial e com prémios chorudos para os vencedores. Para quem não tem ideia da dimensão da Maratona de Londres, este ano foram 43749 os atletas que finalizaram a prova. Por uma questão de facilidade, utilizei os resultados apenas do escalão masculino onde terminaram a prova 23226 atletas.

O vencedor da prova fez o tempo de 2:15:51. O 10º classificado fez mais 5,2% do que o vencedor. Já o 31ºclassificado, o último atleta de elite a ser classificado fez mais 8,4% do que o tempo vencedor. Até ao 40º lugar todos os atletas ficaram com uma diferença inferior a 10% face ao vencedor.

Aqui começa o aspecto subjectivo da análise. É razoável uma variação de 10% face ao tempo do vencedor para excluir os restantes atletas de uma prova? Ou deveríamos considerar uma variação de 20% e incluir assim cerca 390 atletas para a prova? Se saltarmos para uma variação de 30% já conseguiríamos incluir cerca de 1280 atletas na prova, será isto suficiente? Em qualquer ramo de actividade, uma variação de 30% é, salvo raras excepções, uma variação bastante significativa, pelo que considerando que todos os atletas com resultados superiores a 30% face ao recorde do mundo não pudessem participar nesta prova, teríamos de eliminar cerca de 95% dos atletas do escalão masculino que finalizaram esta prova.

Olhando agora para os resultados do Ultra Trail Mont Blanc de 2014, a prova de trail mais famosa do mundo, com os seus 168 Km e quase 10000 de desnível positivo, quem ficaria impedido de participar caso se aplicassem uns critérios do género dos acima expostos?

Em 2014 finalizaram o UTMB 1582 atletas e o vencedor fez o tempo de 20:11:44. Se considerássemos uma diferença de tempo superior a 10% ao vencedor, fiquem sabendo que apenas poderíamos contar com a participação de 5, sim CINCO, atletas. Por exemplo o 8º classificado de 2014, o nosso bem conhecido e campeoníssimo atleta Carlos Sá, terminou com mais 13% de tempo relativamente ao vencedor. Se considerássemos uma diferença limite de 20%, teria terminado a prova assim que o 21º atleta cruzou a meta, e se a variação máxima fosse 30% a prova terminaria à passagem do 43º atleta. O 100º atleta a cruzar a meta demorou quase mais 50% que o vencedor, e como comecei por referir terminaram a prova 1582 atletas.

Em resumo, se as organizações considerassem as pretensões desse núcleo de opinadores e adoptassem uma regra onde aceitassem apenas a participação de atletas com um tempo nunca superior a 30% relativamente ao ano transacto, veríamos a Maratona de Londres ser reduzida a 5% dos participantes e o UTMB a menos de 3% dos participantes. Façam esta análise a provas menos populares e eventualmente esta percentagem ainda se acentuará mais…

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Pergunto agora eu, são estes 5% de atletas que movem as massas? As transmissões televisivas certamente que sim, mas e o turismo, a divulgação dos países, das regiões, das gentes e do locais, a festa para os atletas e para os espectadores, onde se enquadra tudo isto?

Será essa a vontade das organizações? Pelos vistos não uma vez que de ano para ano os regulamentos das provas não diminuem o tempo para finalizar a prova. Na realidade são esses 95% de excursionistas, caminheiros e Zé dos Pincéis, que suportam financeiramente grande parte de eventos como os que referi e que decididamente fazem a festa acontecer.

Para concluir só tenho duas recomendações, uma para os opinadores: que criem e organizem as suas próprias provas e limitem a participação à meia dúzia de atletas de elite que conseguirem convencer a participar, se o conseguirem… Outra para os excursionistas, caminheiros e Zé dos Pincéis, nos quais me incluo, que terminem sempre dentro dos tempos definidos no regulamento das provas e continuem a participar e a fazer a festa; mais minuto menos minuto, mais hora menos hora, os nossos objectivos são cumpridos e a nossa realização pessoal ninguém a tira.

Continuação de bons treinos e de boas provas!!!

Treino Nocturno na Arrábida

Como contei aqui, recebi o presente envenenado de ser o guia de um treino pela Serra da Arrábida que aconteceu na madrugada de Sábado para Domingo.
Entre confirmações e desistências de última hora, não sabia ao certo quem seriam os participantes efectivos neste treino. A única coisa certa é que este duraria entre 7 a 8 horas, e os quilómetros previstos para correr nos trilhos da Arrábida seriam algo entre os 50 e os 60. O track previsto era este, mas existiam vários pontos de escapatória para atalhar alguns troços, caso fosse essa a vontade do pessoal.
Quase 22h00 e começaram a aparecer os companheiros de treino. Primeiro o Paulo Martins, depois o Sommer, o Manuel e o Gonçalo, e por fim o Charrua, que fechou esta equipa de seis, para percorrer a Arrábida noite dentro. Curiosamente, de nós os seis, só eu e o Charrua não vamos participar na próxima edição do Ultra Trail Mont Blanc, mas ainda assim o treino serviu para propósitos diferentes para cada um de nós. Para mim para começar a meter quilómetros nas pernas depois da azarada etapa em Andorra; para o Charrua foi apenas um treino de adaptação a corrida nocturna com vista à participação no Ultra Trail Nocturno Lagoa de Óbidos da próxima semana; para o Paulo foi apenas para meter quilómetros nas pernas rumo ao Mont Blanc; e para o Sommer, Manuel e Gonçalo para treino de adaptação à segunda noite em prova para o UTMB, tendo estes iniciado este treino sem dormirem há já 37 horas.
Iniciámos assim o treino, todos diferentes na fase de preparação todos iguais na vontade de fazer quilómetros.
A noite estava brilhante com a lua quase cheia e o céu estrelado a fazer-nos companhia. A temperatura óptima para correr ajudou durante todo o percurso. Por vezes o vento assoprava para nós, mas sempre numa temperatura amena que nunca obrigou a vestir mais que a t-shirt inicial.
Começámos o treino com 8 quilómetros roladores para aquecer o corpinho, aqui e ali com um ritmo exagerado para o que se pretendia, o que chegou a assustar alguns dos presentes. Mas rapidamente chegámos à subida para o Formosinho, o pico mais alto da Serra da Arrábida, o que obrigou a acalmar esta energia bruta de início de treino. A subida para o Formosinho faz-se pelo lado interior da Serra, subindo pelo meio de trilhos empinados, sempre circuláveis mas com alguns troços de vegetação mais fechada. Quase no fim, um trilho mais empinado e voilá, chegamos ao pico mais alto da Serra da Arrábida, de onde se tem uma vista total de 360º. Por ser de noite via-mos apenas luzes, muitas luzinhas, que sabíamos que iam desde a Serra de Sintra, passando por Lisboa, toda a margem sul, Palmela, Setúbal, Tróia, até se perderem algures no infinito do Alentejo.

No ponto mais alto da Serra da Arrábida – Formosinho

Iniciámos a descida rumo à Praia de Alpertuche e foi este, talvez, o maior devaneio deste treino. Não pela descida do Formosinho a Alpertuche, mas sim por ter traçado o caminho por um trilho bem fechado, o que nos custou a todos bastante tempo, alguns arranhões e a mim uma t-shirt bem fixe agora cheia de buracos. Foi um quilómetro e meio por um trilho bem meu conhecido, que tem de ser corrido quase de cócoras, mas que agora no verão se encontra com a vegetação bem mais fechada do que o habitualmente já fechado. Bem tive de ouvir as reclamações de todos e a minha sorte foi que não ter levado comigo o livro vermelho, senão ainda teria a ASAE a bater à minha porta um destes dias… Terminado o “suplicio” deste trilho, percorremos a estrada nacional até ao início do trilho final que nos leva até à Praia de Alpertuche. Um trilho bem técnico a descer, que requer algum cuidado e onde quase todos demos umas escorregadelas valentes e batemos com o rabo no chão. Chegámos à praia e todos aproveitámos para comer qualquer coisa e reabastecer para a subida. Não desfazendo a companhia, estar à meia-noite na Praia de Alpertuche, com a lua quase cheia no céu estrelado, rodeado de mais cinco marmanjos é, digamos assim, muito pouco romântico… Romantismos à parte iniciámos a subida que há pouco tínhamos descido, desta vez rumo ao trilho que o Paulo denomina de Vale Encantado. Entrámos no trilho e foram meia dúzia de quilómetros pela zona dos Picheleiros e outra meia dúzia pelo Vale da Rasca, sempre num frenético sobe e desce, daqueles que não matam mas moem (e muito), típico da Serra da Arrábida. Como quem não quer a coisa chegámos ao Parque das Merendas, todos ávidos por reabastecer, já que os 30 quilómetros que já tínhamos percorrido esgotaram os líquidos que tínhamos connosco. Levávamos pouco menos de 5 horas de treino, e comecei a ouvir as primeiras vozes a pedir um atalho no track original.
A chegada ao Parque das Merendas foi bastante divertida. Poucos minutos antes das 3h da manhã e 6 “malucos” chegam a correr de frontal na cabeça, cada um com uma luz mais forte do que o outro. Uma meia dúzia de carros lá parqueados, onde avistamos um movimento frenético de bancos a endireitar e roupas a circular no interior das viaturas. Um casalinho teve mais azar que os outros. Estacionados a escassos dois metros da primeira torneira que nos apareceu à frente, teve de levar connosco por uns bons 15 minutos, até todos terminarmos de reabastecer e comer mais qualquer coisa para o resto da jornada.

A recompensa no final do treino

Arrancamos de novo, desta vez em direcção à Quinta dos Moinhos. Subimos, descemos e chegamos à Estrada Nacional. Com 35 Km nas pernas, o pessoal que não dormia há mais horas começou a ficar impaciente, e talvez com uma espécie de birra do sono, queriam atalhar pela estrada directamente ao ponto de chegada. “Inconcebível” pensei eu, fazer este treino sem ir à “Vigia” seria um sacrilégio e estávamos já, mesmo ali, debaixo dela. Contámos quilómetros, lá convenci o resto do pessoal que a distância seria mais ou menos a mesma, e lá nos fizemos trilho fora rumo à Vigia. Em boa hora o fizemos. Foi mais uma subida bonita por trilho, técnica sem ser massacrante e chegados ao topo mais uma vez uma paisagem indescritível. Reagrupamos e descemos novamente a Serra, por entre trilhos e estradão, até à estrada que nos iria levar perto da Serra do Louro. Já estava decidido que iríamos abortar a escadaria do Bando, o que teria sido a cereja no topo do bolo, mas nem a Serra de Louro o pessoal quis subir. Até ali todos tínhamos sido umas vezes tubarões outras peixinhos, mas agora o ambiente era mais de peixinhos fora de água do que de outra coisa. Uns com dores aqui, outros com dores ali, outros com muito sono, quiseram atalhar directamente para Azeitão sem passar pela casa da partida, ou melhor sem subir a Serra do Louro, tendo sido corridos 5 quilómetros de estradão até ao Alto das Necessidades, onde o Sommer ainda se deixou dormir enquanto corria por três vezes, tendo o treino terminado “sem honra nem glória” com três quilómetros de alcatrão até Azeitão. Aqui parece que todos tinham ressuscitado, e foi quase um sprint estrada fora, com o Sr. Ribeiro, dorminhoco há uns minutos atrás, agora a liderar as hostes como se fosse salvar alguém da forca.
No final terminámos este treino com 50 quilómetros nas pernas, percorridos quase sempre com boa disposição, excepção feita à descida do Formosinho que foi feita com muitos impropérios!!!

50Km depois, já de manhã

Alongamentos feitos, banho de água gelada nas pernas na Fonte das Adegas, e estávamos prontos para o último sprint do treino até às tortas de Azeitão. Não sei se foi da fome mas penso que foi a melhor torta de azeitão que já comi até hoje.
Obrigado a aos cinco amigos pela excelente companhia , votos de boa sorte para os que vão estar no UTMB daqui a quatro semanas, e se gostaram apareçam também no II Summer Trail Camp.

Continuação de bons treinos e de boas provas!!!

Nota: Leiam também a excelente crónica do Sr. Ribeiro sobre este treino clicando aqui.

A primeira decisão para a época de 2016

Está tomada a primeira decisão para a época 2016 que, a bem da verdade, é a segunda.

Trocando por miúdos, o objectivo principal para 2015 seria a participação no Ultra Trail Mont Blanc. Tendo um azar natural em tudo o que não depende do mérito próprio e passa antes por jogos de sorte ou azar como são os sorteios, “naturalmente” não fui sorteado para participar na edição de 2015.

Este passou a ser o objectivo para a época desportiva de 2016, ir correr e desfrutar da mais mítica prova de Ultra Trail do mundo. Pelas regras definidas no regulamento do UTMB, terei no sorteio de 2016, o dobro das probabilidades de ser sorteado relativamente a 2015, na prática é como se tivesse dois bilhetes de lotaria no sorteio em vez de apenas um. No entanto creio que a minha falta de fortuna nestas coisas tem uma forte possibilidade de se continuar a manifestar e que o UTMB ficará lá para 2017, onde caso não tenha sorte no sorteio de 2016, terei entrada directa (isto se até lá não mudarem as regras).

AUT_CompedrosaEsta lenga-lenga toda para chegar à partilha convosco, de que caso a falta de sorte se continue a manifestar para o UTMB, já decidi que em 2016 irei repetir o Andorra Ultra Trail, não no Mitic Ultra Trail, mas desta vez nas 100 milhas mais duras da Europa na Ronda del Cims.

Esta descrição do João Mota (clicar aqui para ler o texto) ilustra excelentemente o que é a Ronda del Cims.

É um desafio brutal e só não é do outro mundo porque é mesmo ali em Andorra.

Continuação de bons treinos e de boas provas!!!

Ir ao MIUT e voltar para contar

Novembro 2014. Estava delineada a minha época desportiva 2015 com a ilusão de participar no UTMB e, fosse ou não fosse positivo o resultado do sorteio para o UTMB, o MIUT faria parte das provas a realizar em 2015.

Fevereiro de 2015, Hora do Esquilo, treino rolante e suave, em vésperas do Ultra Trail de Sicó onde iria fazer o meu treino longo de preparação para o MIUT. Um estalido na madrugada, uma dor no tornozelo e o treino terminou ali, mal tinha começado.

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Faltavam seis semanas e uns dias para o MIUT e o primeiro grande objectivo para 2015 estava agora em risco. Dois ligamentos internos do tornozelo tinham saído do sítio. No Instituto de Medicina Tradicional recoloquei os ligamentos no sítio certo, mas a recuperação avizinhava-se morosa. Duas semanas passaram e já podia recomeçar a correr, em terreno plano e sem um ritmo elevado. Não houve mais Hora do Esquilo, Treino da Salamandra, ou Serra da Arrábida, e foram quatro semanas a treinar devagarinho, em pisos com pouco declive e sempre em ritmos lentos, sem esforçar o tornozelo. Todo o plano de treinos delineado para preparação do MIUT foi comprometido, e o objectivo passou a ser treinar para iniciar o MIUT ao invés de treinar para terminar o MIUT. E assim fiz, como não conseguia cumprir o meu plano de treinos de corrida, ia para o Kalorias Fitness Club e fiz muito reforço muscular, fiz quilómetros e quilómetros de elíptica/crossramp, e subi degraus sem conta na passadeira de escadas, exercícios que não forçavam o movimento do meu tornozelo.

Quinta-feira, dia 9/4 – Chego assim a Machico para levantar o meu dorsal, em condições mínimas para iniciar a minha maior aventura até à data. Objectivo iniciar, muito próximo de concretizar. Segundo objectivo: ir o mais longe possível sem forçar o tornozelo a algum movimento extemporâneo que pudesse comprometer a participação na prova e a recuperação total. Secretamente, estava convencido de que com um pouco de sorte, chegaria pelo menos ao ponto de controlo dos Estanquinhos, aos 30 quilómetros de prova.

Sexta-feira, dia 10/4, Funchal – Contava já as horas para a partida que seria às 24h00 em Porto Moniz. Passei a tarde deitado a descansar mas sem conseguir dormir uma sesta, o que poderia ser perigoso caso a prova fosse correndo bem e conseguisse progredir.

Sexta-feira, dia 10/4, Porto Moniz – Faltava agora pouco mais de uma hora para a partida. Muitos atletas já estavam nos arredores da partida e os autocarros com atletas vindos de Machico estavam agora a chegar. Muitos amigos e muitas caras conhecidas, muita motivação e muita adrenalina no ar, e muita vontade de começar. Eram cerca de 400 os atletas que iriam começar os 115Km do MIUT.

Sábado, 11/4, 00h00, Porto Moniz – Soa o tiro de partida. Curiosamente sentia-me muito leve e despreocupado. Estava consciente de que tinha feito o possível para começar o MIUT, e após cruzar a linha da partida cada metro que conseguisse progredir e que conseguisse vencer seria uma pequena vitória.

Os primeiros 2 quilómetros tinham cerca de 400 metros de desnível positivo, bons para aquecer e entrar no ritmo/espirito da prova. Sentia-me bem a subir. Com o cuidado devido de ver bem onde punha os pés, subir não seria um problema para o meu tornozelo. Já descer era toda a minha fonte de preocupação. O desconforto de um tornozelo ainda a 75%, um movimento mal feito ou o pé colocado no sítio errado, poderiam significar o fim do meu MIUT. A subida e a descida correspondente sempre aos “esses” serviu mesmo para aquecer e vislumbrar as bonitas luzes de um pelotão cada vez mais alongado. A passagem pela Ribeira da Janela foi, talvez, um dos pontos mais memoráveis no que ao público diz respeito. Muitas pessoas na rua a fazer barulho e a apoiar os atletas que passavam, o que ajudou a dar um boost extra para a primeira subida a sério em direcção ao Fanal. Foi ali que iniciámos o primeiro quilómetro vertical da prova, com uma subida de 11 quilómetros e cerca de 1100 metros de D+. Os primeiros quilómetros da subida foram tranquilos, a sair da povoação da Ribeira da Janela. Pouco menos de dois quilómetros e apareceram as primeiras escadas, as primeiras entre milhares e milhares que o MIUT nos oferece, de todas as formas e feitios e que todas juntas, penso que dariam para subir daqui até à Lua! Muito cuidadinho nestes degraus de terra delimitados por troncos, sempre escorregadios e propícios a um belo trambolhão caso não se assentasse o pé no melhor sítio do degrau. Foram assim 4 Km onde subimos perto de 800 metros de D+, e entrámos numa levada que durou mais uns bons 5Km. Aqui corria-se em comboio, com o pelotão ainda algo junto, e com a adrenalina de sentir a água a descer pela levada à nossa esquerda e de sentir o precipício brutal à nossa direita, e digo sentir porque não se conseguia ver o precipício no breu da escuridão, mas de certeza que ele estava lá. Chegado o fim da levada e surge mais uma ingreme subida que levaria finalmente até ao Fanal. Foram mais 2 quilómetros a subir e os primeiros 16Km estavam feitos. Aqui surgiu o frio pela primeira vez. Estávamos a uma cota de cerca de 800 metros, mas as nuvens baixas e o vento movimentavam uma cacimba gelada que recomendavam o vestir do corta-vento. Assim fiz e os dois quilómetros até ao Fanal passaram num instante. Fiz o check point, roubei uns biscoitos e dois pedaços de chocolate no abastecimento e fiz-me novamente ao caminho. Estava a 1200 metros de altitude e a descida seguinte poderia mudar toda a história. Eram cerca de 5 quilómetros com um desnível de quase 900 metros D-. O piso em terra mole poderia parecer bom para uma descida tranquila e segura, mas o seu tom castanho-escuro era exactamente da mesma cor das pedras, rochas e raízes que completavam o percurso. Para “ajudar” a humidade que se sentia tornava o piso completamente escorregadio, como manteiga em focinho de cão, como se costuma dizer. Sempre apoiado nos bastões, desci em passada ainda inferior a baby steps, muito lentamente e quase sempre com a certeza absoluta de onde colocava os pés. Ainda assim não consegui evitar três trambolhões durante a descida, que felizmente não me machucaram mais do que o ego. Sentia-me impotente para descer mais depressa, mas se quisesse chegar mais longe teria de ter muita paciência e concentração, e era esse o objectivo. Não arrisquei andar depressa nem tão pouco correr durante a descida, descidas onde geralmente acelero e ganho muito tempo nas provas. Desta vez tudo teria de ser diferente. Com algum esforço cheguei ao final da descida inteiro, no Chão da Ribeira, onde fiz o check point, atestei de água e parti rumo ao segundo quilómetro vertical da noite. Os primeiros quatro quilómetros da subida presenteavam logo com 1100 metros de D+, a serpentear por entre trilhos, degraus, vegetação e rochas. Passei muitos atletas que passaram por mim na descida. Esta era uma prova completamente atípica para mim. Faltavam agora dois quilómetros para os 30, estava a uma altitude de mais de 1400 metros, e um erro de rookie poderia ter deitado tudo a perder. Sentia as mãos frias, geladas mesmo, e a preguiça de tirar as luvas da mochila estava a falar mais alto, afinal só faltavam 2 quilómetros para o ponto de controlo. É este tipo de pensamento que pode arruinar qualquer prova, nunca podemos subestimar a natureza. Fiz mais um quilómetro sem luvas, mas a 1 km do ponto de controlo tive mesmo de as calçar, e terá sido mesmo no limite da hipotermia, já tinha as pontas dos dedos dormentes e não conseguia aquecer as mãos de maneira nenhuma. Chego a Estanquinhos, ao Km 30, às 7 horas. Uma hora antes do tempo limite para chegar a este ponto de controlo, muito melhor que as minhas expectativas iniciais. Ali vivia-se uma grande confusão com muitos atletas a chegarem e poucos colaboradores disponíveis, e muita gente a assistir à partida da prova de 85Km que começava precisamente ali e aquela hora. Comi uma fatia de bolo de mel e um caldinho de canja frio, aproveito para aquecer as mãos, calçar as luvas convenientemente, e faço-me de novo ao caminho. Espera-me agora uma descida de 9 Km e 1000 metros de D-. Não tenho muitas memórias deste troço. Tal como na descida anterior, a concentração para escolher onde punha os pés tinha de estar ao máximo e o facto de ter de descer em baby steps também não ajudava a grande dispersão visual pela paisagem. Recordo-me de constatar alguma vegetação diferente do habitual a envolver o trilho, o que me indicava que estaria a cruzar a famosa floresta de Laurissilva, floresta húmida subtropical, classificada como património da humanidade pela Unesco.

Entretanto nasce o dia e a luz do Sol começa a vislumbrar-se por cima dos picos, num jogo de luzes azul e vermelho que me ficou na memória. Assim cheguei ao ponto de controlo no Rosário, a perder (muito) tempo face ao expectável. Paragem técnica rápida apenas para reabastecer os líquidos e parto rumo à Encumeada, onde lá cheguei subindo uma escadaria quase contínua de cerca de 7 quilómetros. Curiosamente e após subir milhares de degraus de todos os tamanhos e feitios, cheguei à Encumeada sem grandes problemas nas pernas. Não tinha muita fome e nem comi da sopa que ofereciam no abastecimento. Arranquei rumo ao Km 60 no Curral das Freiras, onde haveria um bloqueio às 15h00. Eram pouco mais de 13 Km até lá, mas o início foi logo brutal: uma descida de 2 Km para digerir do abastecimento e uma interminável subida que acompanhava uma conduta de água que descia a encosta, composta por mais degraus de todos os formatos e alturas. Como não comi no abastecimento tive de parar a meio da escadaria para meter alguma energia. Aproveitei um local da conduta onde me podia encostar e desfrutei a vista da encosta enquanto digeria uma barra. Subi o que faltavam das escadas e percorri o trilho que me levaria ao início da descida para Curral das Freiras. Mais ou menos dois quilómetros de distância e 800 metros de D- separavam-me de Curral das Freiras. Mais uma descida mais um inferno, concentração de novo a 200% e baby steps até ao limite do impossível. Mais tempo perdido e muitos atletas que tinha passado a subir, voltaram a passar por mim na descida. Ainda assim consegui chegar ao Curral das Freiras 45 minutos antes do tempo limite. A hora ganha nos primeiros 30 Km estava a revelar-se muito útil, mas ainda assim não podia facilitar, portanto 15 minutos foi o tempo necessário para trocar de roupa e de ténis, atestar de líquidos, comer qualquer coisa enquanto bebi uma cervejola preta que me deu um alento enorme e partir rumo à conquista do Pico Ruivo, a 9 quilómetros de distância com 1300 metros de D+ ou seja, o terceiro quilómetro vertical do dia. Os primeiros quatro quilómetros desta subida passaram num instante. Voltei novamente a passar por muitos atletas que me passaram na descida anterior, e como quem não dá por ela 800 metros já estavam escalados. Faltavam agora cerca de 5 Km para chegar ao Pico Ruivo com cerca de 500 metros de D+. Parecia que iria ser suave, mas uma lição que o MIUT nos ensina é que ali nada é suave ou fácil, e assim foi mais uma vez. Foram 5 quilómetros de escadas até ao pico, a maior parte a subir mas também algumas vezes a descer, o que que causou uma verdadeira dança altimétrica no meu relógio, ora nos 1500 metros ora nos 1700 metros de altura. Tal como na escadaria anterior cheguei ao final sem grandes problemas nas pernas. Fiz o checkin no ponto de controlo, reabasteci de líquidos, sentei-me enquanto comi uma barra, e fiz-me de novo ao caminho rumo ao Pico do Areeiro.

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Pico Ruivo – Foto de Marlene Pereira

Ia já com quase 18 horas de caminhada nas pernas e aqui consciencializei pela primeira vez que se já tinha feito 70 quilómetros sem nenhum azar, se mantivesse a mesma concentração e frieza de certeza que iria chegar a Machico sem problemas. Este pensamento deu-me uma energia extra e toca a subir escadas até ao Pico do Areeiro. Este troço entre os picos é, talvez, pela sua rudeza e espectacularidade, dos mais bonitos de todo o percurso. Escadas e mais escadas, umas vezes a subir outras vezes a descer, ora esculpidas na pedra, ora em troncos de madeira, ora escadas metálicas tão inclinadas que mais pareciam escorregas, túneis escuros que cruzam as montanhas de um lado para o outro, à nossa esquerda a rocha da montanha, à nossa direita um precipício sem fundo, os picos a beijarem literalmente o azul do céu. Volta e meio olhava para cima e vislumbrava pontinhos de cores brilhantes a serpentearem um qualquer caminho mais acima, antecipando-me o quanto ainda teria de subir para ali chegar. Essa visão motivava-me ainda mais para continuar e para subir com mais força e velocidade. E assim subi o último grande lanço de escadas até ao Pico do Areeiro, onde cheguei por volta das 19h28, 32 minutos antes do tempo limite. Rapidamente comi uma canja, fruta, uma barra energética e fiz-me ao trilho. Tinha 6 horas para fazer cerca de 23 quilómetros até ao ponto de controlo na Portela. Nos três troços que me separavam da Portela, um tinha uma subida com quase 500 metros de D+, mas o que verdadeiramente me preocupava eram os outros dois, um com 1000 e pouco e outro com quase 800 metros de D-. Saí do Pico do Areeiro e pude sentir de novo a magia do vermelho e azul no ar, desta vez as cores mágicas misturavam-se na dança do lusco-fusco, enquanto o sol desaparecia atrás dos picos, agora nas minhas costas. A paisagem era agora muito aberta e, não fosse a minha necessidade de continuar a olhar para o chão para escolher onde punha os pés, aposto que poderia vislumbrar o horizonte. Duas horas e meia foi o tempo que demorei a fazer os 10 quilómetros do Pico do Areeiro até ao Ribeiro Frio, ultrapassando os primeiros 1020 metros de D+. Mais uma descida muito técnica, com terra húmida de cor castanha, que se confundia com as rochas e com as raízes tal como no início da prova. Troço concluído e foi altura de recuperar posições nos 4 quilómetros com 500 metro de D+ até ao Poiso. Foi uma subida rápida onde mais vez recuperei alguns lugares. Checkin feito, líquidos reabastecidos, comi um caldo de canja (porque já não havia massa nem frango), e sigo para o trilho que a Portela está já ali. O Poiso era o último ponto de controlo antes do controlo na Portela onde era obrigatório passar antes das 2h00 da manhã. Quando ia a sair estava a chegar um casal que estava também a fazer o MIUT pela primeira vez, e que algo desanimado estava na perspectiva de ficar ali, pois não se sentiam com forças para chegar à Portela antes das 2h00 da manhã. Eu que coxo, e que desde a descida para Curral das Freiras andava a trocar de posições com eles, ora fosse o percurso a subir ora fosse a descer, sabia perfeitamente que eles eram capazes de ir até à Portela dentro do tempo limite, afinal tinham/tínhamos 2 horas e meia para fazer 9 quilómetros quase sempre suaves e a descer. Dei-lhes umas palavras fortes de motivação, disse-lhes que tinham 5 minutos para comer qualquer coisa e arrancarem, e foi com satisfação que os vi chegarem-se a mim a meio caminho da Portela, todos satisfeitos por os ter motivado a continuarem. Este também é o espirito do trail, não deixar os companheiros de corrida irem abaixo em qualquer momento de dúvida. E assim segui mais satisfeito até à Portela, onde cheguei por volta da 1h30 da manhã, 30 minutos antes do tempo limite. Aqui permiti sentar-me um pouco e recuperar do stress provocado pela segunda noite de prova e pelo facto da atenção necessária a ver onde colocava os pés. O ambiente na Portela era quase de celebração. Apesar de faltarem um pouco mais de 16 quilómetros para a chegada, quem ali estava e quem ali ia chegando, tinha a certeza (quase absoluta) de que agora já nada ia impedir de chegar ao final. Sentia-se alegria e boas vibrações no ar, e quase todos brindámos com uma canja quentinha, desta vez com tudo a que tínhamos direito: caldo, massa e galinha.

Pico do Areeiro – Foto do Madeira Island Ultra Trail

Dos cinco troços com tempo delimitado para chegar este, que acabava na meta, era o que permitia o ritmo mais folgado, o que me deixava algo desconfiado pois o troço era curto e seria quase sempre a descer. Parti da Portela com toda a vontade do mundo para terminar o MIUT, e dirigi-me com convicção em direcção às Funduras onde seria o próximo ponto de controlo. Os quilómetros ou melhor os metros, teimosamente passavam devagar. Passo após passo, curva após curva, descida após descida, olhava para o relógio e aquilo que aquela hora me pareciam quilómetros, não eram mais que poucas centenas de metros. Eram quatro da manhã e há cerca de 43 horas que estava acordado, (lembram-se de ter dito que a sesta antes da partida ia fazer muita falta?), e o sono começava a querer manifestar-se. Nunca tinha feito uma prova onde necessitasse de duas noites consecutivas e estava algo curioso para perceber como se iria manifestar o efeito da Privação de Sono. Entre estes e outros pensamentos chego a Funduras de onde sigo imediatamente para o ponto de controlo seguinte em Ribeira Seca. Esperava-me agora um segmento de pouco mais de 6 quilómetros e 450 metros de D-, o que tinha tudo para ser tranquilo até ao final, mas como já disse no MIUT não há coisas fáceis. Vou controlando os quilómetros que passam, um, dois, três, quatro, cinco, e… descer que é bom, nada que se veja, nem nada perto dos 450 metros de D- anunciados… Quase seis quilómetros do segmento, quase o final do segmento e toma lá uma descida com 450 metros de desnível negativo, daquelas sem muitos pontos de apoio, boa para ir largos metros em slide, pular para outro ponto e ir em slide de novo até rebentar a sola das sapatilhas. É claro que para quem ia como eu ia, sem poder esforçar o tornozelo e obrigatoriamente a descer em passada mais curta que baby steps, esta foi apenas a última descida aos infernos que o MIUT teve para me oferecer, tendo sido mesmo celebrada com uma espectacular bolha na lateral traseira do pé direito, que controlava a navegação e o escorregar descida abaixo. Feita a descida, continuei a viagem nocturna por um trilho que deveria ser muito perto da arriba, pois já se ouvia o mar ali mesmo ao lado. E aqui quase sem dar pelo tempo passar cheguei ao inicio da levada que iria levar quase quase a Machico. Estes últimos quatro quilómetros foram aqueles em que a privação do sono se manifestou, pelo menos de maneira que eu percebesse. Iniciei o percurso na levada, já com vista para os arredores de Machico à nossa direita, e estava convicto de que já tinha corrido ali. Cada passo que dava, cada ponto de referência que passava, cada sombra no chão, cada movimento das plantas, eram pequenos déjà-vu que tinha a certeza que já tinha vivido ou presenciado. Continuava a percorrer a levada e não me conseguia recordar de quando ali já tinha passado, mas tinha a certeza de que já o tinha feito. Quase que podia antecipar cada um dos meus passos e cada uma das sombras que via no chão que percorria ao lado da levada. A determinado momento fez-se luz e pensei a brilhante conclusão: “esta é a levada que percorremos na partida, mas agora em sentido contrário, não faz sentido nenhum repetir esta parte do percurso”. E assim, feliz por ter percebido de onde conhecia já o percurso, devo ter percorrido mais umas centenas de metros quando um dos pouco neurónios ainda semi acordados, se deve ter espreguiçado e clicado em algum botão que me fez agora pensar: “ó estupido, a levada da partida está a mais de 100 quilómetros do outro lado da Ilha, como é possível que a levada seja a mesma?!”. E pronto, com este pensamento parece que acordei de novo, tinham passado talvez uns quatro quilómetros desde o início da levada, e aquilo que me parecia tudo um enorme déjà-vu voltou a parecer-se com um percurso perfeitamente normal e desconhecido para mim. Entretanto chego ao último trilho a descer até Machico. O cheiro a meta era cada vez mais forte e agora, mesmo que torcesse os dois tornozelos, era só rebolar até lá abaixo. Termino o trilho e é claro que ainda teria de passar por uma dezena de degraus a descer, não fosse eu esquecer-me, por algum motivo extraordinário, dos vários milhares de degraus subidos e descidos nas horas anteriores. Passei por um atleta espanhol que mesmo com bastões já não conseguia andar direito e ofereci-me para o ajudar a ir até à meta, que distaria uns 200 metros dali. Gentilmente disse-me para seguir que ele iria devagarinho e assim fiz. Segui até à meta que cruzei com 30h44 de prova, feliz e satisfeito por ter conseguido cumprir tal empreitada em condições tão frágeis, mas insatisfeito por não ter podido correr durante o percurso e convicto que em condições normais iria demorar umas boas menos seis ou sete horas a concluir o percurso. Quem sabe se em 2016 não volto de novo ao MIUT para tirar esta dúvida.

O MIUT é uma prova classificada como Future do Ultra-Trail World Tour, e provavelmente para o próximo ano irá mesmo entrar neste calendário, o que aumentará em muito a exigência à organização da prova. Este ano a prova de 115 Km do MIUT contou com 375 atletas à partida, numero que possivelmente duplicará se a prova entrar mesmo no calendário do Ultra-Trail World Tour. A prova é bonita, espectacular, dura e muito bem organizada, e merece por si só a oportunidade de fazer parte de tão privilegiado calendário, mas há sempre aspectos que podem ser melhorados e optimizados, sobretudo se forem esperados o dobro dos participantes.

Pré-prova

O secretariado foi rápido e eficiente. Tenho por hábito estudar os pormenores todos das provas, de maneira que não tinha grandes dúvidas quando lá cheguei, mas daquilo que pude observar tenho a certeza de que só ficaria com dúvidas sobre algum tema quem quisesse ou quem não perguntasse.

Não existia uma grande feira de Expositores, estava limitada a quatro empresas que apresentavam algum material, sem grandes novidades, e que à falta de alternativas terão feito alguns negócios.

O local de refeições e onde decorreu a Pasta Party era contiguo ao secretariado, e foi suficiente para albergar todos os que optaram por esta refeição. Massa bem confeccionada, com várias alternativas de molhos e possibilidade de repetir, gostei bastante. Eventualmente se para o ano forem o dobro das pessoas, terão de considerar dois turnos de refeições ou outro local para este fim.

Durante a Prova

Há três pontos a realçar durante a prova: os pontos de controlo, os abastecimentos e as marcações.

Os pontos de controlo foram muito e quase sempre efectuados de forma electrónica. Outras vezes eram efectuados de forma manual, por voluntários ou membros da Guarda Florestal, que se encontravam à entrada e saída de troços de dificuldade acrescida. Houve alguns pontos de controlo electrónico que não funcionaram correctamente devido à falha de energia. Umas baterias extra deverão solucionar esse problema em edições futuras.

Os abastecimentos do MIUT não sendo maus também não foram bons. É claro que em 10 abastecimentos há sempre uns melhores que outros, e a experiência vai sempre variar de atleta para atleta, também com o número de pessoas que encontram em determinado momento num determinado abastecimento. Não posso apontar a falta de alimentos em massa como já assisti noutras provas, sendo a distribuição equilibrada entre fruta, salgados, bolos e bebidas. O pior foi nos abastecimentos onde supostamente haveria sopa, e onde na realidade esta faltou muitas vezes. E o motivo para mim é óbvio: numa prova onde esperam 400 participantes de uma prova, que a partir de determinados pontos de controlo esperam o dobro e o triplo dos atletas, à medida que os pontos de controlo absorvem os atletas dos 115, 85 e 42 quilómetros, não se pode fazer sopa numa panela que a minha Mãe utilizaria para fazer sopa para 6 ou 8 pessoas no máximo. Deveriam sim, ter um panelão de sopa sempre pronto a sair. Apenas a partir da Portela vi panelões de sopa nos pontos de abastecimento, até lá foram sempre panelinhas, com o auge no ponto de abastecimento do Poiso, onde só já havia mesmo caldo para comer.

As marcações do MIUT são simplesmente irrepreensíveis. É impossível perdermo-nos, apesar de ter visto alguns atletas perderem-se à saída do ponto de controlo do Rosário e irem em sentido contrário ao da prova. Seguiram um atleta que foi tirar umas fotos e não repararam nas marcações do trilho. Voltando às marcações, estas são fantásticas, de dia ou de noite sempre brilhantes e visíveis com reflector, e ainda com luz pisca-pisca sempre que necessário.

Pós Prova

A prova terminou em Machico e tive direito a uma espécie de refeição, um prego, com duas fatias de pão enormes e meio bife que não acompanhava a grandeza das fatias de pão. Não tinha muita fome e como era o meu pequeno-almoço foi suficiente. Mas penso que poderia estar algo mais reconfortante à espera dos atletas.

O processo de levantar o saco com roupa lavada foi rápido e expedito. Já o local para banhos e duches deixa algo a desejar, de tão pequeno e limitado. É certo que talvez 80% ou mais dos atletas tenha ficado em hotéis da zona de Machico, mas quem não ficou merece tomar um duche em condições antes de se fazer à estrada para outro ponto da Ilha.

Precisamente por estar fora de Machico, não tive oportunidade de assistir à entrega dos prémios, mas dos relatos que me fizeram terá sido uma cerimónia bastante bonita e interessante de se assistir.

Os atletas, os trilhos e o lixo

O ponto que marcou mais negativamente o meu MIUT foram os atletas, mais precisamente o lixo que estes deixaram ao longo de todo o percurso. Esta foi a primeira prova onde me senti triste por constatar que há muitos atletas que participam em provas de trilhos e não respeitam minimamente a natureza. O volume de lixo de embalagens de géis, barras energéticas, e outras coisas tais, não biodegradáveis, deixados ao longo do percurso é indescritível e dará certamente para encher dois ou três sacos de lixo dos grandes. Onde está o espírito de deixar apenas a pegada no trilho? Onde está o bom senso de levar o próprio lixo até ao próximo ponto de controlo? E sim as pontinhas de cima das embalagens de gel também são lixo, muitas pontinhas no chão fazem quilos e quilos de lixo como os que foram espalhados na Madeira. Este é um problema que precisa ser solucionado rapidamente em todas as provas, e que precisa da colaboração e bom senso de todos os que participam em provas de natureza.

Em resumo, o Madeira Island Ultra Trail é de facto uma prova 5 estrelas, diferente, difícil e divertida, que recomendo como experiência a todos aqueles que gostam de correr na natureza. Com a preparação devida é uma prova que se consegue fazer até ao final e as paisagens e os locais que cruzamos valem bem cada minuto do nosso esforço.

Um agradecimento final ao Instituto de Medicina Tradicional e o Kalorias LAV que me permitiram recuperar e treinar para atingir as condições mínimas a fazer o MIUT que vos descrevi, e um abraço especial a todos os amigos que me foram acompanhando ao longo do percurso e mandaram mensagens de apoio e carinho, que foram sem dúvida uma motivação extra para dar mais um passo rumo à meta.

Continuação de bons treinos e de boas provas!!!