Desta já te safaste…

Quem participa regularmente em provas de ultras distâncias, será sempre na minha opinião, alguém que tem uma força de vontade, capacidade de sofrimento e resiliência acima do considerado “normal”. Apesar destas qualidades, a maior parte das vezes, serem positivas no desenvolvimento pessoal, muitas vezes se conjuntas com cansaço físico, muitas horas sem dormir, e alguma teimosia, podem reunir um cocktail perfeito para as coisas correrem menos bem.

Congratulo o meu amigo Paulo Martins por se ter safado desta, uma desidratação forte e feia que lhe valeu 10 dias no hospital, no seguimento da sua participação no Ultra Trail Mont Blanc. Dentro do menos bom as coisas acabaram por correr bem, mas podia não ter sido assim. Espero que recupere totalmente depressa para podermos fazer mais uns treinos pela Arrábida.

PM

Quem corre em montanha, seja ela qual for, mais alta ou mais baixa, menos perigosa ou mais perigosa, com mais assistência ou menos assistência, terá de ter ser sempre uma grande dose de auto critica e de auto avaliação, e perceber quando se deve parar por estar a colocar outras coisas mais valiosas em risco como a nossa saúde ou mesmo a nossa vida. Não há corrida que valha isso.

E já agora nunca esquecer que não somos imortais, como em tempos escrevi aqui.

Continuação de bons treinos e de boas provas!!!

Os Imortais

Quantos de nós, que corremos em trilhos e montanha, que já ultrapassámos desafios inimagináveis para muitos e para nós próprios, que corremos distâncias absurdas de 50, 100, 200 e mais quilómetros, que subimos a picos gelados e corremos na areia quente do deserto, quantos de nós nunca ultrapassámos os limites da segurança por uma vez que fosse, ou nunca apanhámos um susto – maior ou mais pequeno, ou nunca reflectimos após uma qualquer acção mais tresloucada: desta vez até correu bem…

Vem esta pequena reflexão a propósito do João Marinho se encontrar desaparecido nos Picos da Europa, atleta que não conheço pessoalmente, mas que a julgar pelas palavras de amigos que o conhecem, só pode ser uma excelente pessoa e um excelente atleta.

Não sei se o João Marinho teve um qualquer percalço ou não, nem de que modo planeou e preparou a sua aventura.

A reflexão que pretendo fazer é que todos nós já arriscámos aqui e ali, seja num trilho urbano à porta de casa, na serra que corremos todas as semanas, ou no estrangeiro num local desconhecido. Já todos tivemos percalços, acidentes, azares e sorte, muitas vezes sem consequências, outras com pequenas mazelas, e por vezes com resultados menos felizes.

Estudem bem e preparem ainda melhor as vossas aventuras. Invistam na vossa própria segurança como fazem no restante equipamento; hoje é muito fácil poder ser localizado em tempo real em quase todo o mundo.

E quando tiverem que se aventurar aventurem, quando tiverem de arriscar arrisquem, mas nunca que se esqueçam que não somos imortais…

“Nothing is as important as passion. No matter what you want to do with your life, be passionate”, o pessoal espera-te de volta João.