Desta já te safaste…

Quem participa regularmente em provas de ultras distâncias, será sempre na minha opinião, alguém que tem uma força de vontade, capacidade de sofrimento e resiliência acima do considerado “normal”. Apesar destas qualidades, a maior parte das vezes, serem positivas no desenvolvimento pessoal, muitas vezes se conjuntas com cansaço físico, muitas horas sem dormir, e alguma teimosia, podem reunir um cocktail perfeito para as coisas correrem menos bem.

Congratulo o meu amigo Paulo Martins por se ter safado desta, uma desidratação forte e feia que lhe valeu 10 dias no hospital, no seguimento da sua participação no Ultra Trail Mont Blanc. Dentro do menos bom as coisas acabaram por correr bem, mas podia não ter sido assim. Espero que recupere totalmente depressa para podermos fazer mais uns treinos pela Arrábida.

PM

Quem corre em montanha, seja ela qual for, mais alta ou mais baixa, menos perigosa ou mais perigosa, com mais assistência ou menos assistência, terá de ter ser sempre uma grande dose de auto critica e de auto avaliação, e perceber quando se deve parar por estar a colocar outras coisas mais valiosas em risco como a nossa saúde ou mesmo a nossa vida. Não há corrida que valha isso.

E já agora nunca esquecer que não somos imortais, como em tempos escrevi aqui.

Continuação de bons treinos e de boas provas!!!

Outra vez a correr na passadeira

Para quem nunca tinha corrido em passadeira, duas experiências na mesma semana é dose.

Se na terça-feira a experiência no Kalorias foi de livre vontade, hoje foi uma espécie de obrigação.

As organizações das provas de trail running com grandes distâncias e grande desnível, solicitam quase todas um atestado médico que certifique a ausência de quaisquer impedimentos para a prática desportiva. Como ainda não tinha tal atestado e as próximas provas requerem o mesmo, tinha de tratar disso com alguma brevidade e hoje foi o dia.

Após uma pesquisa dos locais que efectuam este tipo de consultas, acabei por optar pelo Centro de Medicina Desportiva de Lisboa, entidade estatal onde os atletas de alto rendimento das diversas modalidades efectuam também os seus exames.

Para o comum dos mortais com mais de 34 anos, a consulta custa 99,80 Euros e é composta por análises ao sangue e urina, exame biométrico e oftalmológico, ECG, RX pulmonar, consulta de medicina desportiva, e prova de esforço com ECG.

Foi a primeira vez que fiz uma prova de esforço e esta seguia o protocolo de Bruce. Para quem não sabe, a ideia da prova de esforço é submeter-nos a uma determinada modalidade de esforço físico graduado e monitorizado com electrocardiograma, aumentando a demanda metabólica do coração, avaliando assim, entre outras coisas, a aptidão cardio-respiratória global e a presença de isquemia no músculo cardíaco. O protocolo de Bruce é uma das maneiras de avaliar e quantificar esse esforço. Basicamente colocam-nos numa passadeira, lá vem a (mal)dita passadeira de novo, (e continuo a não ter jeito para correr na passadeira), onde temos de andar e correr períodos de 3 minutos a determinada velocidade e inclinação, até chegarmos ao nosso limite anaeróbio ou, se formos prós, ir até ao final do teste que poderá durar até aos 21 minutos.

Protocolo de Bruce (Tabela Máxima)

Etapa Minutos

Inclinação (%)

Km/h

METS

1

3 10 2.7

5

2

3 12 4.0

7

3

3 14 5.4

10

4

3 16 6.7

13

5

3 18 8.0

15

6

3 20 8.8

18

7

3

22

9.6

20

Como não sou pró e até já sou entradote, não fui até ao fim do teste, mas para a minha condição actual e com o tornozelo meio empenado até não foi mau de todo, algures na metade final do teste.

O resultado deste teste permite também calcular o VO2Max, existindo fórmulas diversas para esse cálculo, mas isso fica para outro texto.

Do ponto de vista do paciente todo correu normalmente, resta esperar os oito dias para levantar os exames e espero que com estes todos os certificados de provas que pedi para assinarem, atestando a ausência de quaisquer problemas.

O momento alto desta experiência decorreu na fase da consulta com o médico de medicina desportiva. Terminada a auscultação, aponta o estetoscópio na direcção da minha barriga e comenta: “um bocadinho gordinho, andar a correr com isto montanha acima…”

Continuação de bons treinos e de boas provas!!!

Ainda os Abutres (e a hipotermia)

Não participei nos famosos Trilhos dos Abutres 2015, mas já tanto li, vi e ouvi sobre esta prova que é quase como se lá estivesse estado. Esta prova de 50Km, para quem não sabe, caracteriza-se por ser uma prova dura, com muita dificuldade técnica, em plena Serra da Lousã. Quando há condições climatéricas adversas, o que aconteceu este ano, com muita chuva nos dias anteriores e no dia da prova, os trilhos transforma-me em verdadeiras pistas de lama, e os cursos de água que num dia normal se atravessam sem problema transformam-se em verdadeiros desafios aquáticos para atravessar. Se também considerarmos a baixa temperatura atmosférica que se fez sentir, pode-se afirmar que o grau de dificuldade aumentou grandemente face a um dia em condições normais. Por este motivo muitos atletas, cerca de 40%, foram barrados numa das barreiras horárias impostas pela organização, não podendo assim completar a sua prova até ao fim.

Muitas criticas se levantaram contra a organização da prova, por esta ser intransigente e inflexível no cumprimento deste ponto do regulamento, cujo âmbito me parece mais para proteger os atletas de eventuais acidentes, do que as organizações por terem de esperar mais uns minutos ou umas horas pelos atletas.

Não fazendo eu parte desta ou de qualquer outra organização de provas, a minha opinião é a de que as organizações devem cumprir os regulamentos, sejam eles quais forem. Cabe aos atletas, antes de se inscreverem, lerem, avaliarem e concordarem os ditos, e se considerarem que estão em condições de completar o desafio proposto nas condições apresentadas, então sim inscreverem-se. Infelizmente o que observo cada vez mais, é atletas sem a preparação adequada tentarem completar desafios difíceis sem terem a noção daquilo a que se propõem fazer, e sem lerem sequer uma única vez o regulamento das provas.

No caso particular do Trilho dos Abutres 2015, li relatos de atletas que foram barrados por chegarem com 5 segundos de atraso, mas também li muitas e muitas reclamações de atletas que chegaram ao controlo com mais de 1 hora de atraso, reclamações que me parecem algo insensatas, até face às condições atmosféricas e do terreno da prova naquele dia. Um dos relatos que li e que demonstra bem que a esta organização agiu correctamente é partilhado no blogue quarenta e dois ponto dois que podem ler clicando aqui.

Outro ponto que me impressionou nas coisas que li e ouvi sobre esta prova, foram os diversos relatos de princípio de hipotermia que muitos atletas descreveram. Tal deveu-se à falta de equipamento adequado e à falta de sensibilidade de muitos atletas para as condições de frio e chuva que se faziam sentir. Como se costuma dizer, quem vai para o mar avia-se em terra, e se vamos para a serra ou montanha, e com condições atmosféricas muito adversas, todos os cuidados são poucos.

Primeiros Socorros em caso de hipotermia (Em espanhol mas foi o que se arranjou)

Há sobretudo que planear bem as provas em que participamos, para minimizar todos os riscos que possam ocorrer durante as mesmas, condições atmosféricas incluídas.

Um dos acessórios que transporto comigo em provas ou treinos em que sei que a temperatura pode vir a ser um problema é o Thermo Pad, um saquinho que pesa 30 ou 40 gramas, e que se activa naturalmente aquecendo as mãos até 8 horas, com temperaturas que podem ir até aos 65º!!! É só tirar da embalagem, sacudir, apertar na mão e/ou colocar dentro das luvas e já está. Aquecemos as mãos num instante, e minimizam-se os problemas térmicos que geralmente começam por afectar as extremidades.

Thermopad

E quanto custa esta maravilha da técnica? Menos de 2 Euros na generalidade dos sites que o comercializam. Podem ir ao site original do produto clicando aqui.

Continuação de bons treinos e boas provas (sempre em segurança 😉 )!!!

Os Imortais

Quantos de nós, que corremos em trilhos e montanha, que já ultrapassámos desafios inimagináveis para muitos e para nós próprios, que corremos distâncias absurdas de 50, 100, 200 e mais quilómetros, que subimos a picos gelados e corremos na areia quente do deserto, quantos de nós nunca ultrapassámos os limites da segurança por uma vez que fosse, ou nunca apanhámos um susto – maior ou mais pequeno, ou nunca reflectimos após uma qualquer acção mais tresloucada: desta vez até correu bem…

Vem esta pequena reflexão a propósito do João Marinho se encontrar desaparecido nos Picos da Europa, atleta que não conheço pessoalmente, mas que a julgar pelas palavras de amigos que o conhecem, só pode ser uma excelente pessoa e um excelente atleta.

Não sei se o João Marinho teve um qualquer percalço ou não, nem de que modo planeou e preparou a sua aventura.

A reflexão que pretendo fazer é que todos nós já arriscámos aqui e ali, seja num trilho urbano à porta de casa, na serra que corremos todas as semanas, ou no estrangeiro num local desconhecido. Já todos tivemos percalços, acidentes, azares e sorte, muitas vezes sem consequências, outras com pequenas mazelas, e por vezes com resultados menos felizes.

Estudem bem e preparem ainda melhor as vossas aventuras. Invistam na vossa própria segurança como fazem no restante equipamento; hoje é muito fácil poder ser localizado em tempo real em quase todo o mundo.

E quando tiverem que se aventurar aventurem, quando tiverem de arriscar arrisquem, mas nunca que se esqueçam que não somos imortais…

“Nothing is as important as passion. No matter what you want to do with your life, be passionate”, o pessoal espera-te de volta João.